Os grupos de radioamadores e a sociedade dos lobos

     Os lobos vivem em alcateias, as quais têm uma hierarquia bem definida. Um casal de lobos do tipo Alfa comanda todo o grupo, apoiados por um segundo casal do tipo Beta. O casal Beta é submisso à autoridade do casal Alfa mas, assim como o casal principal, tem autoridade total sobre os lobos mais fracos do bando, conhecidos como lobos Ômega. 

    O macho Alfa é quem determina onde o grupo irá pernoitar e quando irão caçar. Ele é o primeiro a comer e determina quem poderá comer após ele. Já os lobos do tipo Ômega não têm poder nenhum de decisão e dependem completamente das habilidades de caça de seus superiores, sem os quais não sobreviveriam. São os últimos a comer e, apesar de serem diminuídos pelos mais fortes, são protegidos em caso de ataque inimigo. 

    Uma outra característica dos grupos de lobos é que o número de indivíduos é limitado. Em vez de formarem um único grupo grande, os lobos se organizam em pequenos ou médios grupos que competem entre si pelo alimento e pelo território. Essas condutas dos lobos, no mundo animal, são louváveis, pois representam uma forma de organização inteligentíssima, que lhes garante a sobrevivência e a preservação da espécie num mundo não civilizado.

    E os grupos de radioamadores, como se organizam? Temos algum tipo de divisão de responsabilidades, como na sociedade dos lobos? Se existe,  você reconhece radioamadores do tipo Alfa, ao redor dos quais os demais radioamadores se agrupam? Será que radioamadores Alfa determinam as frequências e modos nos quais os demais devem operar? Será que determinam os pontos de encontro, as temáticas das conversas, os horários a serem ocupados e a distribuição dos espaços de fala? 

    Você já identificou radioamadores do tipo Beta no nosso meio? Aqueles que, a serviço do Alfa, ajudam a manter as atividades dos grupos funcionando? Por exemplo, ficam varrendo as frequências para saber com quem e onde os colegas do grupo andam falando?  Você já presenciou radioamadores Beta reportando ao Alfa as opiniões colhidas através de rádio escuta ou de grupos de Whatsapp? Já percebeu se o Beta se preocupa com os equipamentos que os colegas estão adquirindo e utilizando para reportar ao Alfa? 

    Você já percebeu o Beta ou o próprio Alfa tomando nota das bandas/faixas onde os colegas de grupo estão operando e se estão se relacionando com outros grupos? Você já recebeu recados do Alfa ou do Beta para frequentar mais as frequências onde o grupo costuma operar ou se sentiu intimidado por falar em outras frequências nos horários em que as conversas do grupo do Alfa acontecem? Você já se sentiu incomodado por não conseguir ajudar financeiramente na manutenção das atividades do grupo, como na aquisição de equipamentos e organização de eventos?

Você identifica radioamadores do tipo Ômega, que mostram reverência aos chefes Alfa e Beta, dependem deles para manter um mínimo de convívio social ou para manter suas antenas e rádios funcionando, seja através de empréstimo de equipamentos ou disponibilização de mão de obra para instalação ou configuração? Você já observou colegas do tipo Ômega serem cancelados e eventualmente expulsos do grupo no primeiro sinal de afronta às determinações do Alfa? Você já se sentiu um radioamador Beta ao ouvir o Alfa comentando sobre o comportamento dos indivíduos do grupo ou detalhando a você estratégias a serem adotadas com membros específicos?

    Se você respondeu não a todas as perguntas, considere-se um radioamador realizado e que nunca presenciou dissabores no hobby. Mas se respondeu sim a pelo menos uma das perguntas, considere que, infelizmente, esse comportamento é bastante comum em atividades humanas de caráter cívico ou recreacional, especialmente naquelas sem vínculo empregatício. Por que citei o vínculo empregatício? Porque, em uma empresa séria, esse comportamento seria considerado nocivo à organização, por não permitir a autonomia dos indivíduos e por submetê-los a situações que resultariam em ações judiciais por assédio moral. 

    Já quando a relação entre subordinadores e subordinados não é estabelecida por vínculo empregatício, cria-se a ideia de que o grupo funciona como uma empresa fictícia, na qual as regras trabalhistas são inexistentes. As condutas individuais são avaliadas nos campos da honra, do respeito ao culto da imagem do líder (Alfa), de forma semelhante ao que vemos em seitas, organizações religiosas, sindicatos e partidos políticos. Muitas vezes, cria-se nos subordinados a sensação de que eles não terão reconhecimento fora do grupo, o que os mantêm submissos e incapazes de evoluir fora dele. Se a permanência no grupo depende de contribuição financeira e o colega não é capaz de honrar o compromisso, ele se afasta permanentemente ou vive se justificando aos colegas para não ser desonrado.

    Felizmente, já participei das atividades de diversos grupos de radioamadores e asseguro que, na maioria deles, o respeito ao indivíduo e ao seu desenvolvimento técnico e cultural enquanto radioamador prevalecem. Mas os grupos de lobos radioamadores podem estar por aí, cabendo a você decidir se será um radioamador autônomo e tratado com dignidade ou se cederá sua liberdade de atuação dentro do hobby para atender a um objetivo qualquer.

Para saber mais sobre a sociedade dos lobos, visite o site abaixo.

https://educacao.uol.com.br/disciplinas/biologia/lobos-lobos-alfa-e-beta-linguagem-corporal-dos-lobos-e-sua-alimentacao.htm

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