A importância de se comunicar de forma eficiente pelo rádio
A comunicação presencial é muito mais eficiente que qualquer outra forma de comunicação por um motivo muito simples: quem fala ou quem escuta pode usar os cinco sentidos para transmitir ou receber a mensagem. Se o emissor fala muito rápido ou muito baixo, o receptor pode usar a linguagem corporal ou a leitura labial para entender o contexto da fala. Se o emissor é daqueles que toca os colegas para se expressar, algo muito comum nos brasileiros mas bizarro para muitos gringos, o receptor pode usar a frequência e pressão dos toques para entender a mensagem. Em última instância, até mesmo o olfato ou o paladar podem ser usados para realizar a captação da mensagem. Por exemplo, num churrasco, quando o assunto for a comida e a bebida servidas.
Em uma chamada de vídeo, alguns elementos importantes da conversa presencial são perdidos, como o tato, o olfato e o paladar. Porém ainda são preservadas algumas vantagens, como a possibilidade de se receber a mensagem tanto pelos ouvidos quanto pelos olhos.
Quando falamos no rádio, no entanto, estamos com imensa desvantagem devido ao fato de dependermos exclusivamente da audição para a interpretação da mensagem recebida. Dessa forma, é extremamente importante que quem tem a palavra seja o mais claro possível na sua comunicação. Caso contrário, pode não ser interpretado corretamente pelo receptor e, inclusive, pode vir a ser evitado em comunicações futuras.
Tendo em vista o raciocínio exposto acima, algumas dicas simples podem tornar a conversa via rádio muito mais atrativa. As dicas a seguir não se aplicam apenas a radioamadores iniciantes, pois é comum termos dificuldades em entender radioamadores gabaritados:
- falar sempre com velocidade moderada - a fala rápida ou lenta demais pode tornar a mensagem incompreensível ou cansativa;
- usar um tom de voz adequado se não dispuser de um microfone de ganho - não é necessário gritar ao microfone, mas deve-se evitar falar muito baixo ou longe demais do "mike", afinal o receptor não está ao seu lado;
- usar potência adequada no seu equipamento - exceto se estiver muito perto do receptor ou estação repetidora, procure usar a máxima potência do equipamento para que sua mensagem chegue alto e clara ao receptor;
- não começar a falar imediatamente após receber a palavra - sempre aguardar um intervalo de tempo antes de falar, para permitir intervenções dos colegas que já estão na conversa ou de colegas que desejam entrar na conversa.
Sobre a última dica, não há um consenso sobre o comprimento adequado do "espaço de câmbio", porém ele deve ser disponibilizado sempre, não devendo ser curto demais a ponto de alguém não conseguir adentrar na frequência com seu indicativo nem ser longo demais a ponto de parecer que você vem da cozinha para sua estação para pegar o câmbio. Sugere-se um tempo de 3 segundos para maior fluidez do bate papo. Não é necessário um cronômetro para essa tarefa. Basta mentalizar a o mantra: "Vinte e um, Vinte e dois, Vinte e três". Caso você esteja operando em uma rede de repetidores linkados, o tempo de 3 segundos pode ser insuficiente. Nesses casos, informe-se com os operadores dos links sobre o espaço de câmbio adequado.
Um ponto que pode gerar controvérsia é se, numa conversa a dois com assunto direcionado, é realmente necessário deixar o espaço de câmbio para o ingresso de outros colegas. A resposta a essa pergunta é muito simples: sim, é necessário deixar o espaço de câmbio sempre. Caso queiram privacidade, os colegas podem fazer uso de outros meios de comunicação, como o telefone fixo ou celular. A conversa via radiofrequência deve sempre ser entendida como um debate público, aberto a todos os interessados que sejam habilitados.
Essa é a principal característica de nosso hobby e dever ser mantida. É ela que permite colegas que nunca se falaram antes na vida tornarem-se grandes amigos instantaneamente. Essa facilidade em se comunicar não existe nem mesmo nas redes sociais modernas, nas quais seria considerado invasivo tentar se comunicar com alguém que não pertence ao seu ciclo social. É essa característica que será sempre um diferencial do radioamadorismo e que manterá o hobby sempre vivo. Se você é contra essa premissa, é contra um dos pilares do radioamadorismo.
Por fim, é importante a observância da Resolução 449/2006 da Anatel, que aprova o Regulamento do Serviço de Radioamador, com atenção especial aos Artigos 35 e 41:
Art. 35. Ao radioamador é vedado desvirtuar a natureza do serviço, assim como usar de palavras obscenas e ofensivas, não condizentes com a ética que deve nortear todos os seus comunicados;
Art. 41. Não poderá o radioamador operar estação sem identificá-la;
Parágrafo único. Durante as transmissões, o indicativo de chamada deverá ser transmitido, pelo menos, a cada hora e, preferencialmente, nos 10 (dez) minutos anteriores ou posteriores à hora cheia.
Sobre os artigos 35 e 41 acima, não há o que se discutir: devem ser seguidos por todos e ponto final. Usar palavras de baixo calão ou ofensivas é ilegal. Se presenciar tal situação com frequência, grave com um celular e denuncie na Anatel. A depender da ofensa, caso ela configure crime contra pessoas (por exemplo, injúria) faça um boletim de ocorrência e anexe a prova do crime. Ser omisso nessas situações é o pior comportamento que podemos ter, posto que nossa classe pode ser exposta de forma injusta por pessoas que se intitulam radioamadores mas são meros meliantes.
Quanto aos colegas que não identificam sua estação, isso não configura um crime por si só, a menos que o operador não possua licença para operar naquela faixa/banda do espectro. Porém é um comportamento em desacordo com o regulamento do Serviço de Radioamador. Para não ser deselegante com os colegas que se comportam dessa forma, há dicas infalíveis a serem seguidas:
- se não reconhecer o radioamador que entrou dizendo "bom dia", "boa tarde", "boa noite" ou "oportunidade", solicite a ele que se identifique assim que lhe transferir a palavra para que você possa registrar o contato;
- caso o colega se recuse a se identificar, não lhe conceda mais a palavra, pois ele não está preparado para ser um radioamador ou é um radioamador que não respeita o serviço;
- se o colega disser que sua estação não está legalizada, não seja rude
com ele, mas explique que é necessária licença para operar o serviço e
que mantê-lo na conversa estaria em desacordo com as regras vigentes,
podendo gerar penalidades a todos os envolvidos na conversa caso esse
comportamento se repita com frequência;
- se reconhecer o radioamador que não se identificou corretamente como alguém legalizado, faça você mesmo a identificação dele ao receber ou transferir o câmbio - não é necessário realizar esse procedimento em todos os câmbios, mas pelo menos algumas vezes durante a conversa.
Ao perceber que você segue o regulamento à risca, provavelmente seu interlocutor será mais cuidadoso nas próximas vezes que for modular, ao menos quando você estiver na conversa. Não se preocupe em ser visto como o "chato" ou "fiscal da Anatel", pois o que está em jogo não é sua amizade com o colega em desacordo com o regulamento, mas sim a sobrevivência do hobby.
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