O primeiro conteste em morro a gente nunca esquece
Eu não entendia muito bem o motivo de tanta gente pronunciar "CQ Concurso, CQ Concurso" numa madrugada fria de inverno. Até descobrir que era uma competição que estava acontecendo. Isso ficou claro quando um colega repreendeu o outro que aproveitou um contato recém-fechado para entrar na frequência e fechar também, sem pedir licença. Isso ocorreu mais umas três vezes naquela madrugada, com vários colegas diferentes. Então pensei: jamais vou entrar nessa loucura, afinal rádio é para minha diversão.
Passado um mês, eis que estava eu lá novamente acompanhando a noite do "CQ Concurso" ou "CQ Conteste", como alguns pronunciavam. E lá do alto da Serra da Mantiqueira, em Campos do Jordão, um colega conversava calmamente com outros enquanto participava do concurso, como se estivesse pescando. Procurei saber mais sobre o colega e descobri que ele era um grande campeão em uma determinada faixa e modo de operação há muitos anos. E que várias vezes ao ano repetia a mesma aventura. Sua pontuação era infinitamente maior que a dos demais concorrentes.
Usando um software de simulação, resolvi traçar o mapa de cobertura do local onde ele costumava participar e, para minha surpresa (talvez não para a dele) tinha um alcance espetacular, cobrindo todo o Vale do Paraíba, Litoral, Grande São Paulo, parte significativa do Interior de São Paulo, Região dos Lagos no RJ, Baixada Fluminense e região montanhosa do RJ, como Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo.
Eu não tinha a pretensão de subir um morro naquele momento, mas fiquei bastante interessado em iniciar minha participação em concursos. Do primeiro até o terceiro eu brinquei de casa mesmo, tendo feito um número muito grande de contatos, a ponto de saltar de uma 17ª classificação no primeiro concurso para a 2ª posição no terceiro concurso. Então descobri que eu levava jeito para a coisa.
Depois também descobri que os colegas costumavam operar, na sua maioria, a partir de grupos. E, por uma grande felicidade, fui convidado pelo tal colega campeão para fazer parte do time dele. Apresentado ao organizador do grupo, eu logo recebi uma grande quantidade de dicas valiosas e comecei a planejar minha primeira subida a um morro.
A escolha do local adequado levou tempo. Eu não podia frequentar o mesmo local pois competíamos na mesma faixa, de modo que se um modulasse o outro não escutaria nada e vice-versa. Por isso, o local escolhido por mim foi um morro alguns quilômetros à frente, em uma propriedade particular. O local não possuía telefone nem email para contato. Então resolvi ir até lá pessoalmente para solicitar a permissão para uso durante o conteste.
Confesso que estava apreensivo quanto à condição da estrada, afinal não tenho veículo 4x4. Mas consegui fazer contato com propriedades próximas, cujos proprietários me informaram que a estrada tinha condições de tráfego.
Coloquei um rádio, uma bateria, uma pequena antena OSJ e um tripé no carro e parti rumo à Serra da Mantiqueira. No meio do caminho, já na região de São José dos Campos, percebi que havia esquecido de levar o cabo para ligar o rádio na antena. A viagem estaria perdida se não fossem os colegas da Rodada Bom Dia Arsema, de Campos do Jordão. Pelo rádio, eu solicitei ajuda e um colega de Taubaté me emprestou o cabo. Com tudo no carro continuei a viagem e iniciei a subida da Serra. Paisagens belíssimas, de tirar o fôlego.
O começo da subida foi muito tranquilo, com vias pavimentadas, mas logo a pista ficou só terra e pedras e cada vez mais íngreme. Apesar disso o carro 4x2 aguentou o tranco e subiu o morro, a 1900 m de altitude. O local era magnífico para falar no rádio. Em poucos minutos eu havia falado com São Paulo Capital e Rio de Janeiro usando apenas 5W, cobrindo mais de 150 km.
De volta a São Paulo, planejei minha próxima viagem. Adquiri uma antena direcional cruzada, mastros, cabos, cordas, estacas, barraca, mesa e uma série de acessórios. Na véspera do conteste, coloquei tudo no carro com muito esforço e voltei à Serra da Mantiqueira. Antenas montadas, hora de dormir e deixar para montar a barraca logo pela manhã, pois já era tarde da noite. No dia seguinte, o vento era tão forte que a barraca saiu voando durante a montagem. Tive que abortar esse plano e montar a operação de dentro do carro.
Tarde de tempo ensolarado, concurso iniciado, primeiros contatos fechados. Tudo indo muito bem, quando uma enorme tempestade se formou repentinamente há uns 3 km de mim. Desci do carro, recolhi as tralhas que estavam jogadas Aquela nuvem cinza carregada rapidamente chegou perto de onde eu estava. Assustadoramente, ela estava muito próxima do solo e soltava raios imensos. Rapidamente entrei no carro e soltei, com muita dificuldade, os cabos das antenas dos rádios e joguei para fora. Mal deu tempo de fechar os vidros e a tempestade chegou em cima do carro. Eu não enxergava um palmo longe do carro porque a nuvem envolveu o carro completamente. Ela estava ao nível do solo. Eu só escutava os estrondos em volta de mim. Tinha certeza de que minhas antenas foram atingidas pelos raios, o que depois não se confirmou, graças a Deus. Pedras de granizo do tamanho de bolas de golfe caiam sobre a carroceria. As pancadas eram tão fortes que tive receio de quebrarem o vidro e me apedrejarem dentro do meu próprio carro. Estava em pânico. Se saísse do carro poderia ser eletrocutado e se ficasse poderia ser apedrejado.
A tempestade não durou muito, mas foi o suficiente para encher a pista de lama. Fiquei preocupado com a posição em que o carro havia ficado e tive a brilhante ideia de manobrar o veículo para deixá-lo em uma posição melhor. Ao descer uma ruazinha logo à frente, para depois retornar no sentido contrário, o carro atolou completamente, com todos os equipamentos dentro e longe das antenas.
Montei a mesa fora do carro e transportei os equipamentos para cima dela. Os conectores molharam com a chuva, então tive que secá-los e limpá-los por um bom tempo. Resolvido esse problema, comecei a operação sem o carro e sem a barraca, quando a chuva resolveu voltar. Corri com tudo para o carro novamente e voltei a me encontrar com raios, dessa vez com o agravante de o carro ter atolado embaixo de árvores, que poderiam cair a qualquer momento em cima de mim. Essa foi uma boa hora para eu exercitar minha capacidade de autocontrole e não entrar em pânico, mas achei que aquele seria meu primeiro e último conteste. Não costumo rezar, mas naquele dia rezei. Rezei para sair vivo dali.
A reza deu certo e ainda me deu um bônus: a chuva parou e ainda consegui desatolar o carro. O tempo se abriu e ainda foi possível observar um lindo céu estrelado. Continuei no concurso e fiz muitos contatos bacanas. Passei boa parte da noite papeando com alguns cariocas, já que os contatos desapareceram. Me sagrei campeão naquela categoria. Meu colega veterano ganhou em uma outra categoria. Nosso time levou quase tudo naquele concurso.Naquele momento eu vi o real sentido de estar ali. Precisava ter passado por tudo aquilo sozinho naquela noite e terminá-la bem para entender que nada vem fácil.
Semanas depois eu voltaria àquele morro para outro concurso. Não peguei chuva durante o conteste, mas só no fim. Dessa vez consegui montar a barraca, o que melhorou muito as condições de operação. Ouvi um barulho muito estranho, semelhante a um rugido, em volta do acampamento. Não era gado nem sapo. Depois fiquei sabendo, pelos moradores do local, que se tratava de esturro de sussuarana, a famosa onça parda. Não cheguei a visualizá-la, mas sei que estava por perto e duvido que queria me fazer algum mal. Mas só o fato de estar rodeado por elas novamente fez pensar no que somos capazes de fazer para atender a um desejo pessoal. Os locais também me perguntaram como foi minha experiência com as mansas cascavéis que habitam o local onde eu montei a barraca. Disseram que de manhã elas saem para tomar sol e é comum passarem por nossos pés sem nos picar.
Me lembrei de alguns momentos em que eu ia girar a antena direcional e o cabo de iluminação se soltava, me deixando no mais completo breu. Ficava tateando o chão até encontrar o cabo e ligar a iluminação novamente. Eu estava completamente sozinho, num local de difícil acesso, longe de qualquer hospital. Se fosse picado ali seria o fim. E também lembrei que dormi num local com muitas aranhas marrons. Eram tantas a ponto de ter fila na porta logo pela manhã, tentando entrar pela fresta da porta.
Você deve estar curioso para saber se eu teria coragem de repetir tudo isso...Eu digo que sim, mas talvez com mais responsabilidade da próxima vez.
PY2QB
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